Você é para eles um porco sem dignidade
Como há gente capaz de comemorar a execução de Charlie Kirk ─ primeira de três reflexões sobre sua morte
Nunca foi estranho para um cristão possuir inimigos. Há um mundo espiritual de trevas que o persegue, que o instiga a pecar, que quer lançá-lo no mais terrível fogo do inferno. Esse mundo pavoroso atenta contra todas as pessoas, por dois motivos principais: por ódio a Deus e por inveja do homem.
Os demônios já estão condenados e jamais poderão contemplar a Deus; jamais participarão do estado beatífico que aguarda os bem aventurados. No entanto, as pessoas que ainda vivem, possuem ainda a possibilidade de, arrependendo-se de seus pecados, enfim viver com Deus eternamente.
Eis por que os demônios invejam tanto os homens, eis por que querem tirar deles a vida eterna, eis por que os tentam. Odeiam a Deus, porque Deus é o Caminho, e eles são a perdição; porque Deus é a Verdade, e eles são os pais da mentira; porque Deus é a Vida, e eles são a morte. A inveja e o ódio movem essas criaturas.
Não é um ódio e uma inveja genéricos, descompromissados, relaxados. São viscerais, todavia, profundos: são pessoais. Extasiam-se ao ver algum cristão padecendo ─ é o único prazer que faz seus tormentos serem melhor sofridos. Se eu padeço, que ao menos o outro padeça também: eis o cerne podre da inveja e do ódio.
Esses espíritos maus não raramente se apossam de pessoas. Ora, o tempo todo o cristão sente suas influências e as quer repelir. Mas há aqueles que não as repelem, que são por elas tomados; em casos extremos são literalmente possuídos.
Há uma diferença fundamental entre como os cristãos veem aqueles que estão no erro; e como estes veem os cristão. Para nós, todos são criaturas de Deus, feitos à sua imagem e semelhança, possuindo deveres e direitos fundamentais. Todos são chamados a uma vida digna, amorosa e obediente aos supremos desígnios.
Cremos nisto e sabemos da realidade espiritual que nos rodeia e que nos mantém vivos. A realidade espiritual em que estamos e a que somos. Cientes dessa dimensão, queremos que todos amem a Deus, que, assim, cumpram a vocação universal da eternidade, que, caídos, ergam-se e se arrependam, que, no erro, contraiam as pupilas e respirem a luz da verdade.
Santo Agostinho viveu boa parte da sua vida no erro. Era de uma seita anticristã, dos maniqueus; seita gnóstica e falaciosa. Não só viveu no erro quanto à verdade dogmática, mas desperdiçou boa parte da ampulheta vital em bebedeiras e em depravações. Converteu-se enfim, matou aquele homem velho subserviente aos tormentos demoníacos e iniciou uma vida nova, transfigurada em Cristo.
Quando, enfim, já era Bispo, uma seita semelhante à que participara crescia e aterrorizava os cristãos: eram os donatistas. A pregação deles era violenta, de um puritanismo extremo, chegavam a invadir Missas para matar padres e leigos. Os crimes chocavam a população predominantemente cristã, que exigiam justiça.
As autoridades civis e religiosas se juntaram para discutir como lidar com isto; o Imperador não titubeou: pena de morte! Santo Agostinho se insurgiu… Muitas questões rodopiavam em sua consciência como labaredas de espinhos… Deveriam ser punidos de morte os donatistas? Mas o que os motivavam eram questões dogmáticas; exatamente como antes motivavam Agostinho… E se este santo foi capaz de se converter, e se o Espírito Santo o tocou tão profundamente que ele já não era o mesmo que costumava ser, esses hereges donatistas poderiam passar pela mesma transformação!
Era a consciência cristã que o perturbava: era a ânsia de ver aqueles que tinham se decidido pela perdição finalmente poderem ser salvos! Santo Agostinho olhou para esses inimigos, que não hesitariam um instante sequer de decapitá-lo, com a mais profunda compaixão cristã.
Que coração duro o desses hereges! Seus crimes recrudesceram, escândalos maiores foram capazes de armar: mais mortes, mais violências, mais perseguições. Muito contrariado, mas coerente com os impositivos de sua consciência, Agostinho enfim fez-se favorável à pena capital; e assim a praga donatista foi contida.
Nós consideramos nossos inimigos como pessoas, criadas à imagem e semelhança de Deus, que cada vez que transgridem as leis eternas, aviltam contra sua própria dignidade. Que queremos deles? Que se abram para Deus, que se convertam, que se transformem em pessoas renovadas à eternidade.
Mas caso seus erros ultrapassem os umbrais de suas consciências e periguem de vez a sociedade, que sejam contidos com a força necessária.
É justo um cristão utilizar da violência? Em legítima defesa, sem dúvida. É o caso como a pena de morte contra os donatistas, contra posteriormente os cataristas; é o caso das guerras santas, que salvaram a cristandade medieval e que salvaram a Espanha e o México no século XX.
Mas nunca percamos a consciência de que para eles, nós não possuímos dignidade nenhuma. Somos, para eles, como vermes, como porcos que podem ser abatidos no meio da rua, com o mais cruento jorro de sangue. Assim foi com Charlie Kirk, assim seria com qualquer um de nós.
O materialismo, que baseia a crença deles, diz que os homens valem apenas como engrenagens num mecanismo ideológico. Não há uma realidade espiritual que nos concede dignidade: é tudo um mero casuísmo. Se milhões devem ser mortos em nome de uma utopia sempre vindoura, ovos devem ser quebrados para se fazer omelete. Se nações devem ser despedaçadas e famílias destruídas para que algum ideólogo diga, no auge da sua antipatia e alheamento, que em mais alguns séculos o paraíso terrestre será instaurado ─ ovos e omeletes…
Esquerda versus direita é um tema cheio de vacuidades: onde exatamente termina uma e começa a outra? O que de fato as define? Já percebemos que é uma divisão que não consegue pôr os pés fora da histeria das massas; é realmente aquele velho conto leboniano.
Mas podemos falar de uma divisão perceptível, palpável, explícita. Não é uma mera questão de que lado do parlamento se senta para discutir as verbas de um asfaltamento. Mas a divisão, sim, entre aqueles que acreditam na dignidade humana e no seu fulcro eterno e espiritual e aqueles que acreditam que não há diferença entre uma vara de porcos num chiqueiro e uma Igreja. Entre aqueles que combatem o inferno e aqueles que marcham pomposos em sua direção.
Vemos como dignos aqueles que nos veem como porcos. Vemos como gente aqueles que nos veem como engrenagens. Lamentamos a morte de um inimigo, porque pode ter perdido de vez sua alma. Mas eles, os inimigos, vão comemorar nossa morte, porque, para eles, somos como porcos indignos ─ e assim reza sua ideologia demoníaca.
Essa divisão é profunda e irremediável, não há meio termo e não há tréguas. A esse ponto crucial, é impossível qualquer proximidade, qualquer laço amistoso. Eis a consciência que tem faltado aos cristãos; eis a consciência que nos deve nortear.
